18 abril 2012

BEIJO

Tens a boca entreaberta, súplica de beijos. O olhar lançado ao ar quando pestanejas. O cabelo solto desobedece-te, revolto.


O teu corpo move-se e a vida acontece-te com a naturalidade de todos os dias. Os problemas acumulam-se e forçam espaço dentro de ti. A pele cede, o corpo desiste aos poucos, resignado. Dás os passos que tens que dar e nem sequer podes evitar os que não queres. Segues em frente porque não há cruzamentos nem escolhas a fazer e a realidade paralela esconde-se-te.


Há sorriso e esperança e ternura e amor. Mas não são teus. Os outros nem se apercebem que tu não te apercebes do que não tens. És de toda a gente. Deverias ser, pelo menos. A tua miséria devia ser de todos porque a solidão dividida é uma contradição.


O teu corpo move-se e espera-se que estejas viva. Se te baterem com os nós dos dedos – se te batessem com os nós dos dedos – devolverias um som metálico, oco. Forjada no vazio, morres vazia. E tarda-te o fim, que o tempo entre o antes e o depois é demais para viver a dor.


Olho-te do fundo da tua sombra ao meio-dia. Estou aos teus pés e não me vês e ainda assim não me pisas. Sabes caminhar nos silêncios. Daqui, de onde estou, vejo-te a boca entreaberta, suplicando o beijo que te não dei. O olhar triste que deixei que as brisas levassem. E quase sinto os teus cabelos no meu rosto, revoltados.


Tarda-me o fim, que o tempo entre o antes e depois é demais para viver sem ti.

6 comentários:

Mar Arável disse...

Poema entristecido

mas profundo
e belo

Filoxera disse...

Tanta poesia, neste amor triste,
tanto vazio numa dor que persiste.
Tanta força que ainda subsiste
Num amor que foi esperança e já não existe...

Um abraço.
Adorei o post.

Nilson Barcelli disse...


Beijo

Nilson Barcelli disse...

Tenho saudades dos teus posts, dos teus comentários, das tuas fotos...
Beijo, querida amiga G.

Anônimo disse...

lindo, sem palavras...

Ana Pereira disse...

Boa tarde
Passei pelo teu cantinho para te dar a conhecer o meu modesto espaço de poesia.
Espero que gostes. Um abraço, Ana Pereira
http://almainspiradora.blogspot.pt/