31 dezembro 2010

TEMPO


Sabes que amanhã é apenas um resto incumprido de ontem?

Sabes que hoje ainda tens um pé no passado porque é lá que te deixas todos os dias antes de inventares coragem para te descobrires no amanhã?
Sabes que as horas e os dias são bolas de algodão para nos amortecer o medo do desconhecido?
Sabes que o tempo não se parte nem se divide, porque é muito mais inteiro do que tu ou eu ou toda a gente?
Sabes… dizem que hoje é véspera de um Novo Ano, que se vira a folha quadriculada com números de uma coisa a que chamaram calendário.
Se souberes que o tempo não te teme, que te acolhe pleno de lições e vida e amizade e ternura e amor– desde que os saibas distinguir e viver! – pega na folha, abre o champanhe e deixa que o fogo de artifício te deslumbre.
Só não deixes que o tempo te assuste: é que não há tempo para ter medo de viver!


Feliz 2011

29 dezembro 2010

MULTIDÃO



Desata-me o vestido nos ombros
(tem dois laços de fita de seda)
E abraça-me.
Não estranhes se o corpo devolvido
For apenas o teu
Que me desfaço – nua – em teus braços,
Volatizo-me, plena,
Ergo-me bruma de mim,
Gasosa, leve, etérea
Só com a ideia de te saber perto.
Guarda os braços no gesto
E espera que a felicidade me resgate,
Que o desejo me aglutine na atmosfera
E me devolva o corpo fugido atrás da alma.
Guarda-te no sentimento e espera.
Para além da dormência, do cansaço.
Ignora o desconforto da posição:
Fecha os olhos!
Sentes?
É a minha boca na tua
E a pele quente que sua
Enrolada nesse abraço
Que o tempo não desfez.
Depois da paixão que deixamos
(transpirada)
(desvairada)
(nunca saciada)
No meu vestido de alças de cetim,
(lençol improvisado de hoje
E resto de nós em cada chão)
Pego-te na mão:
Quero levar-te comigo
Para o meio da multidão.

22 dezembro 2010

FELIZ NATAL

Feliz Natal!
Que a crise seja mesmo só de bens materiais.
Que a crise na carteira sirva para evidenciar os verdadeiros tesouros desta quadra: carinho, amor, partilha.
E que os tesouros desta quadra durem para o ano inteiro no coração dos Homens.

Boas Festas!

G...

08 dezembro 2010

PAPEL QUÍMICO


Químico. O amanhã.
Desenhado na folha branca de hoje. Com uma folha fina coberta de pó negro de um dos lados por baixo. Faz barulho ao ser retirada da caixa em que se compram muitas. Servem para duplicar os dias. Porque tem que haver sempre mais um senão não havia amanhã.
Químico. O hoje.
Esqueci-me que nos amanhãs se tem que andar sempre com pezinhos de lã. E apeteceu-me dançar, correr, saltar e derrapar sem pensar em mais nada. Até fiz o pino! E então vi as mãos mascarradas. Parei de saltitar sobre o borrão em que transformei o meu dia. Os traços do papel químico são frágeis. Não suportam euforias.
Químico. O depois.
Este hoje é indistinto. Não sobraram riscos inteiros de ontem para repetir, para duplicar com a mão firme de quem repete um desenho pela milésima vez. Passou a mancha que sobrou da minha alegria imprudente. Sombras e nuvens desordenadas. Nenhum começo e nenhum fim. Hoje, nem alegria, nem rumo. Só um quase nada. E eu.
Químico. Para sempre.
Estão-se a acabar as folhas de papel químico. As que já foram usadas deixam falhas mesmo sob os traços firmes de régua, mesmo sob a fúria da esferográfica. Tornam os dias seguintes cada vez mais imperfeitos. Com hiatos nos momentos importantes, com ausência de momentos importantes. Mas não compro outra caixa. Um destes dias ganho coragem e deixo o próximo dia em branco. Em vez de desenhar o depois, tento ver-me no antes.
Químico. Ou talvez não.
Talvez me reconheça.
Talvez renasça.  

04 dezembro 2010

ADORMECER


adormecer no meio das flores.

sonhar nelas, com elas,

entregar-lhes sono e sonhos...

colhê-los perfumados ao acordar

respirar... RESPIRAR… respirar

adormecer na sombra macia

de pétalas e folhas e cores

voar nos pólens de mão dada

deixar-me ficar e ser beijada

respirar… RESPIRAR… respirar

adormecer sobre terra quente

soltar-me dos fios e amarras

ficar só carne e pele no chão

o espírito a cavalgar liberdade

repirar … RESPIRAR… respirar

30 novembro 2010

HORA

A esta hora não costumo ser tangível. Estico a mão, toco-me mas não me sinto. Etérea, desfaço-me num sopro de ar e deixo-me transportar no rumo dos grãos de pólen.


A esta hora tanto se me dá que os olhos estejam abertos ou fechados. Ignora-os. A realidade que me acolhe não se vê, porque fica por detrás do meu olhar. E do teu.


A esta hora os ruídos são externos, não audíveis. Percebo-os apenas na vibração e na tensão que o seu excesso provoca nos rostos anónimos, que se contorcem sem sequer se aperceberem do desconforto.


A esta hora, sonho. São-me anónimas todas as expressões. Nelas só busco o reflexo do Mundo.


Quando a luz me toca, me olha de frente, me chama num sussurro e ilumina a cara das gentes…devolve-me em reflexo todos os mundos.

No teu sorriso.

28 novembro 2010

SAL

O Sal está quente
Evaporado da água chorada
Em frases desmanchadas
Em letras revoltadas

Quente, o Sal
Fervendo o sol no fogo lento
Cada labareda em lamento
Canta notas de tormento


Estala, o Sal ardente
Ressequido do que não diz
Cercado pelo que não quis
Cristal baço, infeliz

Arde o Sal, afinal
Em fogaréu falho de chama
No fogo gelado de quem chama
A boca quente, que ama

Não faz mal
Que o Sal molhado
Se dissolveria afinal
Nas lágrimas do tempo chorado

23 novembro 2010

DEPOIS

depois conto-te
do arrepio
dos lábios de gelo do rio
no peito feito desvario
depois conto-te
quente de ti
onde te quis e senti
perto, junto, aqui
depois conto-te
de mim

18 novembro 2010

SOMBRAS

À noite as sombras que me carregam no dia escondem-se nos filamentos das lâmpadas. Têm vergonha do breu. Invejam a negritude da noite. Pálidas, encolhem-se nos fios de tungsténio e imaginam que brilham. Opacas no brilho que não é seu, desafiam no seu íntimo o poder absoluto do sono do Sol. Tudo lhes falha. Menos a certeza de que as horas passarão e o seu domínio será reposto.


Os pulsos ficam doridos, os músculos tensos, o pescoço estala. Espreguiço-me e nasce um sorriso num espasmo. Existo. Ninguém me espera, na noite. Ninguém me sabe, no escuro. Ninguém me avista. Nem às minhas lágrimas, se as quiser soltar para que brinquem por entre as tristezas e rolem preguiçosamente pelo meu rosto. As sombras são vergonhas nos filamentos e o tungsténio protege-me. Não tenho que ser. A não ser o que quer que seja.


Quando amanhece e a luz me encandeia mesmo por detrás das cortinas espessas e corridas, a respiração tolhida assinala o regresso. Já nem luto contra o aperto dessas algemas invisíveis, não me lamento das correntes que arrasto nos tornozelos arranhando o chão num silêncio que só me ensurdece a mim. Já nem sei ser. Sei apenas o que tenho que parecer. E que quando a noite voltar, tenho que deixar a luz acesa. Para que as sombras descansem.

07 novembro 2010

INSÓNIA

Tento escrever nas paredes da insónia. Erguem-se brancas, desafios lívidos aos meus cinzentos. Quatro paredes a caminho de um fim que não se vislumbra porque não tem tecto, a insónia. As linhas rectas das intersecções perdem-se na bruma da memória que se desfaz no nevoeiro eterno que existe no fim das noites que se não dormiram.

Até na horizontal, quando me viro e o colchão geme e se queixa, permanecem indefectíveis, hirtas, pedantes. E brancas. Como folhas de papel imaculado, virgem. Uma oração errada, uma vírgula mal colocada, um ponto final precipitado ou tardio – máculas. Atiro as palavras mas ordeno-lhes que regressem antes de se abraçarem à cal.

As paredes da insónia queimam as palavras perdidas na sua verticalidade cáustica. E assim permanecem alvas, as quatro, parecendo por vezes que me esmagam durante o sono, se ele vier. Nunca vem. Mas se vier…

E escrevo-lhes. Agora que me apercebo que jamais terei coragem de arriscar frases na sua superfície acusadora. Escrevo-lhes numa película com que as forrei. Consciência. Ou dito cartas de memória. Para que me oiçam, já que temo que me apaguem as palavras.

A insónia observa-me, directamente de dentro de mim. De uma profundeza mais densa, como se houvesse um abismo dentro de cada um de nós e a insónia estivesse escondida nas suas entranhas. Sabe-me de dentro para fora. Sabe-me mais do que eu própria.

Por isso as paredes não terminam e me anulam. Porque não sabem onde acabo.

Nem eu.

02 novembro 2010

ESTILHAÇO



A noite soprava gelada


-Tinha que ser abaixo de zero-


O sopro do vento escuro,


O gemido por detrás do muro


Alto e denso do nada.


A noite gemia aguada


Tinha que ser assim líquida


A pele da lua límpida


Branca e alva, lívida


Sempre ali e tão perdida:


A minha voz na noite molhada


Na noite escura, encharcada


Falava-te língua de lágrimas


Feitas cristal, feitas no gelo

Vidro soprado do frio da alma


Falava-te no reflexo do granizo


Pingando no vazio - quase estilhaço-


Buscando-te para se derreter


Para se desfazer no teu regaço.

23 outubro 2010

DIAS



Gosto daqueles dias
Que são dias de qualquer coisa
Que não são simplesmente
Dias de nada
Dias de lavar as cortinas
Dias de cortar a relva
Não são simplesmente
Nadas no dia
Dias de almoçar em família
Dias de ir ao cinema
Qualquer coisa nesses dias
Os liberta do nada
Dias de ir passear,
Dias de ir à praia
Dias com qualquer coisa
De que se goste
Cheios de tão pequenos nadas
Tão mais plenos do que aqueles
Cheios de tanto e de tudo
Que se esvaziam da possibilidade
De se fazer apenas qualquer coisa.

17 outubro 2010

ENTRA


Entra
Mas fica quieto
A casa ainda está deserta
O silêncio ainda a tem
Ainda não sabe que vens
Senta-te
Aquieta-te
As sombras ainda conversam
O silêncio não as incomoda
Ainda não sabem que vens
Espera
Sossega
O cheiro ainda tão fresco
Do corpo ardente, usado
Cola-se às cortinas, entranha-se
Ainda não sabe que vens
Dorme
Acorda
No sonho de sempre para sempre
Irreal na vida que mais não é
Que a triste ditadura da loucura
Ainda não sabe que vens

Não saberá - jamais - que te foste...


08 outubro 2010

Das palavras, a alma



 
Se as palavras
A não tivessem
Bebê-la-iam
Dos teus olhos
Quando as lesses.
Cruza a tua alma com a delas
Desfaz as linhas paralelas
Entra em choque com elas
Carrega-as em cruz
Crava-as na memória
Como tachas brilhantes
Cujas farpas só se adivinham.
Se a não tivessem,
- as palavras-
Terias que chorar
Para que a aprendessem
No reflexo das tuas lágrimas
E a reclamassem sua
Até ao fim do tempo.

25 setembro 2010

NÃO SEJAS




Não sejas.

Não queiras.

Não me queiras.

Não faças.

Não beijes.

Não me beijes.

Não olhes.

Não abraces.

Não me abraces.

Que no ser te fazes nó

E no nó que te faço em mim

Te desfaço o olhar num beijo

E te prendo naquele abraço

Que gostavas de não querer.

Não queiras ser

O beijo não dado

No abraço só sonhado.

19 setembro 2010

SÓ ESTOU SÓ


Só.

Só estou só.

Nada demais.

Não treme a terra, não se agitam os céus, não se rebela o mar. Os dias são iguais. Os meus e os alheios. Os meus são só dias sós. Os de alguns dos outros também. Mas a solidão não se consola, mal se reconhece de dentro das cápsulas em que nos enclausura. Outra que não a minha, não é sequer. Só sei o que conheço. Ou reconheço.

Nada demais.

A não ser o som de todos os que me rodeiam. A não ser o toque de cada beijo, o peso de cada abraço, a cadência que os passos imprimem à mão da criança que levo diariamente à escola. Vivo no restolho das vidas que de mim esperam vida.

Só estou só.

Tão só esse facto invisível e refutável. Porque a invisibilidade legitima a ignorância. Pode-se fazer de conta que se não vê. Poder-se-á fingir que não se percebe o automático dos dias? As vinte e quatro horas quadriculadas num horário obrigado em jeito de normalidade? Engrenagem sem óleo, dobradiças que rangem, metal que chia… Lubrifica-se a alma?

Só estou. Só.

Vou estando. Muda por cima das minhas palavras, surda sob todos os sons, cega dentro do meu olhar. O beijo menos molhado, o corpo menos suado, o prazer fotocopiado dos dias em que era partilhado. Não se distingue o original da cópia decalcada onde as marcas do papel químico gritam aos olhares desatentos que se tocarem a folha com o dedo o sentimento se esborrata?

Nada demais.

Só estou só.

Só.

Redutora, reduzida, sílaba única, perfeita para encarcerar esta singularidade em forma de jaula. Palavra sem fuga: «só». Acentuada. Acentua-se a cada minuto em mim. Espreito os outros nos sorrisos que se oferecem quando comungam um olhar. Sei que sabem sentir a presença de quem amam na ausência. Entendo até o conceito. Esses sorrisos desviam-se de mim quando me aproximo. A solidão é repulsiva.

E carcereira das almas vazias de almas alheias.

Por isso é só solidão. Nada demais. Não treme a terra, não se agitam os céus, não se rebela o mar.

18 setembro 2010

QUEBRADA


Quebrada, recolho-me do teu olhar.
Caco após caco, arestas afiadas
Nos teus olhos me procuro
No reflexo tão menos cruel
Que o do meu próprio espelho
Quebrada, espalhada em ti
Devolves-me aos pedacinhos
Dedos cortados, em sangue
Sangria desmedida de amor
Gotas pingadas, rasto de dor
Quebrada, toda aos pedaços
Monto-me do chão em ferida
Ergo-me na memória de mim
Consolido-me em força oca
E por fora, pareço inteira.
Não me olhes
Não me toques
Não respires sequer:
Que me desfaço se vir o teu rosto
Que me rompo se sentir a tua mão
Que desapareço na tua respiração
Que o amor não se afoga no tempo

12 setembro 2010

BORRACHA MACIA


Quero encerrar-nos num abraço, trancar-nos com um beijo e apagar o mundo à nossa volta com uma borracha macia, daquelas brancas que vão ficando pequeninas do uso. Que me importa que o céu fique esborratado, que o mar fique sujo da cor do céu e que os campos se transformem num borrão indistinto? Quando a borracha ficar gasta, compro outra. E volto a apagar tudo o que nos rodeia até me doer o pulso. Até o céu ser branco porque deixou de existir, até o mar passar a ser só o sítio onde ondulava e até os campos secarem e se calarem os gritos das papoilas. Até esquecermos que existiu um sol.

Nesse momento… serás beijo e abraço em mim, beijarás com desvelo o pulso com que afanosamente apaguei a realidade. A mão desse pulso procurará a tua, para te levar, para te guiar quando o abraço tiver que afrouxar e as bocas forem beijo cansado e pedirem pausa. Não me negarás e a tua alma estará com a minha, no desejo de caminhar, de nos construir, de podermos ser. De olhos erguidos perscrutaremos o horizonte em busca de rumo. Que não existirá. E sentirei o pulso latejar.

Uma folha, quatro cantos, tu e eu encurralados na ausência de direcção. Sem estrelas para norte, sem céu para horizonte, sem mar para navegar, sem mato para desbravar. Em bicos de pés – abraçados – numa folha de papel frágil, amarrotada e sem futuros. Seremos perpetuamente o presente que desejamos e que nos poderemos ofertar: corpo e desejo, selados num beijo. Encarcerados num momento, alheios ao mundo e ao seu movimento.

Avistar-te-ei num dos cantos, sentado, ainda mal acordado e pensando que no canto oposto o sono ainda me seduz. Em busca de nós no branco descarado da folha. Notando que o papel se torna quebradiço sob os nossos pés, por mais que nos sintamos levitar num estado de amor total e completo. Sentirás medo. Porque em lado algum encontrarão vestígios de ti, se a folha se rasgar, se ceder ao nosso peso, se o abismo nos engolir.

Ficarei desperta para o teu olhar. Mesmo quando os teus olhos estiverem fechados – principalmente quando os teus olhos se esconderem dos meus sob as pálpebras cerradas. Sempre que o teu peito me cantar o som descompassado do teu coração num abraço. Sempre que nos desfizermos no molhado de um beijo. Sentirei o teu olhar no abismo – porque é abismo tudo o que não conhecemos e eu terei apagado tudo o que podíamos conhecer. E todos os caminhos do sonho.

Um dia o teu olhar será um adeus presente. Será uma lágrima não vertida, um oceano que me inundará a cada beijo, que devolverei no auge do desejo, depois de me ter afogado em ti e quase ter desejado morrer assim. Será um abraço mal dado, um corpo mal tocado, como um piano desafinado que mesmo com a partitura certa não devolve a melodia sem uma ponta de ironia. Um dia, ser-me-ás infiel. Ou eu a ti, na verdade branca e imponente de uma folha de papel gasta e frágil. Ainda que só no sentimento.

O futuro apaga-se, mas não o tempo. E os dias chegam sempre, mesmo que se lhes peça para esperar. O dia chegará. Aquele em que o vazio de horizonte será mais forte do que o conforto da segurança. Em que a paixão se mudará de armas e bagagens para a casa da memória. Em que a pele doente de Alzheimer não se lembrará já do apelo obrigatório do avesso do outro. Nesse dia pisaremos forte e rasgaremos a folha.

Não te aperceberás antes do fim, mas terás menos um centímetro de papel do que a medida padronizada. Não se notará, porque o branco exclui os limites e apaga as sombras. Mas no dia do teu abismo, quando o teu olhar – então sempre diagonal – me disser que se prepara para se lançar… desenhar-te-ei uma porta, com o lápis que o centímetro a menos sempre ocultou. E o beijo que te darei será o último. E não terei forças para o abraço derradeiro sem te implorar que fiques. Por isso não o terás.

Quando fechares a porta – não resistirás ao apelo de te oferecer ao sol e banhar no mar e correr nos campos e olhar as nuvens no céu…– pedir-te-ei apenas que me deixes a borracha. Para apagar a porta que não usarei. E o teu abismo. Para me perder nele para sempre. Se tiveres saudades – um dia qualquer, porque os dias quaisquer também chegam sempre – fiquei com o lápis. Procura a página virada. Estaremos lá escritos.

01 setembro 2010

MADRUGADA


A madrugada chegou mais cedo
P’ra me contar muito em segredo
Que o Mar já não sabe cantar
E as ondas o não querem tocar.
Bateu-me à porta, esbaforida
Toda rasgada, noite em ferida
Temendo o Sol e a queimadura
Da sua raiva vestida amargura.

Madrugada de paixão
Guardas-me o perdão
Que tanto nego, noite fora
Como se ontem fosse agora
Madrugada de ilusão
Esconde-me na escuridão
Dos meus olhos, que me fitam
Dos meus medos, que me gritam
Arrasto gasto no chão
Este resto de perdão
Que piso e deixo ficar
A noite toda a chorar

A madrugada não quis entrar
Que tinha que ir, sem demorar
Deixou em lágrimas o seu recado
De dor e saudade de um passado
Em que rios corriam nos leitos
Rasgados bem fundo nos peitos
Forrados de paz, de ternura
Rocha de amor, pedra mais dura

Madrugada de tormento
Guardas-me o sofrimento
Que tanto nego, noite fora
Como se ontem fosse agora
Madrugada de lamento
Esconde-me por um momento
Dos meus olhos, que me fitam
Dos meus medos, que me gritam
Arrasto gasto no chão
Este resto de perdão
Que piso e deixo ficar
A noite toda a chorar

A madrugada, deixei-a ir
Que tinha mesmo que partir
Roubou-me as mágoas da vida
Levou-as em viagem só de ida
De recibo deixou o sorriso
No perdão que tanto preciso
E um recado vestido de calma
Escrito sem tinta, na minha alma

Madrugada de esperança
Guardas-me ainda criança
No meu escuro, noite fora
Como se ontem fosse agora
Madrugada carregada
Levas-me a mágoa, pesada
Dos meus olhos, que te fitam
Dos meus medos, que te gritam
Arrasto grata cada dia
Este resto de magia
Que sinto e deixo ficar
A noite toda a cantar





28 agosto 2010

CHEGASTE-ME LÁGRIMA

Mergulhei e senti o sabor salgado.

Tive que me habituar devagarinho até conseguir abrir os olhos para te ver turva, desfocada. Até o sorriso trazes ao contrário. As roupas não combinam e os sapatos são diferentes. Não te encontro o olhar e não trazes brincos…. Olhas para trás, sempre para trás e começo a desconfiar que tens um torcicolo.

A tua voz chega-me distorcida, mas vejo que os lábios se mexem. Sinto-te, sem te ouvir, contudo. Talvez mais até do que se o som me chegasse cristalino. Porque as palavras estragam muito o sentido do que queremos mesmo dizer. E sem querer quase te digo para parares de sentir. A única forma de parares de sofrer.

O abraço que me dás cola-se à pele para além do tempo que nele permanecemos. És tanta nesse abraço. Fica tanto de ti em mim. E assim partilho a angústia do teu corpo e a sede do corpo que jamais se apartará do teu, do corpo que queres que se faça três. Um dia, num grande talvez.

Onde deixaste as pulseiras, porque tremes de frio neste sol de Agosto? O cabelo perdido os ombros quebrados, o rosto escondido, os olhos molhados? Quando te beijei e disse até breve esperava-te inteira, chegas-me partida. Por onde andaste perdida? Onde te encontro os pedaços, como te encontro espalhada na tristeza que trazes colada?

Mergulhei-te e senti-te o sabor salgado.

Agora vou recolher-te num abraço apertado.

Chegaste-me lágrima, irmã. Vou só à tua superfície, porque preciso de respirar.

Volto já….

24 agosto 2010

FLOR EM TI


 
Anoiteci no canto

Canto de vida no ângulo recto

Canto trinado do beijo incerto

Canto perdido no som do deserto

Anoiteci ao canto

Que se adivinha depois da esquina

Que se desenha na voz divina

Que canta e me beija, menina

Anoiteci e canto

Com voz escondida uma canção

Notas escritas só de emoção

Pauta de desejo e de paixão

Anoiteci

Flor

Em

Ti

20 agosto 2010

A SOMBRA DO REDEMOINHO



A sombra do redemoinho
Chegou-se e ficou de mansinho
Na rua onde gasto os passos
E onde escondo os abraços
Nas juntas que separam a calçada
No negro que pinta a estrada
E deixou-te ficar sozinho
Mesmo ao lado do caminho.

Redemoinhas nas sombras
Enrolado ergues-te e tombas
Mãos estendidas em pedido
No vento que te leva perdido
Corpo tenso, corpo crispado
Olhar quase vazio, assustado
Pensa que quando me abraças
E o vento acalma, tu descansas

Dá um passo meio ao lado
Das linhas do teu passado
Rompe o vento em furacão
Grita bem fundo um «não»
Acende as sombras que giram
Não vês que elas te admiram?
Tens o caminho traçado
À espera de ser palmilhado.

17 agosto 2010

É TEMPO DE SER AGORA


Respira-me a tempo
De me cantares na alma
De me tocares na corda
Da viola no teu colo

Teima-me no olhar
Para além do beijo
No corpo só desejo
E fúria para te amar

É tempo de ser agora
É tempo de ter passado
O tempo está estragado
Avaria-se a cada a hora
Que passo longe de ti,
Que passo longe de ti…

Desfaz-me os passos
Pelo caminho certo
Desmancha o aperto
Guarda-o em abraços

Inventa-me em código
Traça linhas e riscos
Desfaz-te dos labirintos
E anda ter comigo

É tempo de ser agora
É tempo de ter passado
O tempo está estragado
Avaria-se a cada a hora
Que passo longe de ti,
Que passo longe de ti…

Resiste neste presente
No de hoje e de ontem
Ás desditas que se sentem
Nesse teu corpo ausente.

Oferece-me um passado
Nas palavras de quem diz
Saber que quer ser feliz
E num segundo ser amado

É tempo de ser agora
É tempo de ter passado
O tempo está estragado
Avaria-se a cada hora
Que passo longe de ti,
Que passo longe de ti…

15 agosto 2010

VIDRAÇAS




Daqui, de onde estou, vejo a marca nas vidraças. Densa de bruma que se esvazia lentamente. Até ser marca nos vidros de novo. Até se desvanecer outra vez.


Sentada, na mesa só uma vela acesa no desafio à escuridão. Contemplo o copo de vinho e o sorriso que me oferece na cor rubi do líquido. Faço-o girar, confronto-o com a chama, sinto-lhe o aroma. Guardo-lho.


Oiço ao longe um trovão, anunciando chuva e tempestade. Aconchego-me mais ainda na manta que me suporta o frio e dou conta do arrepio.


As sombras querem dançar a cada uivo mais forte do vento, aproveitando a hesitação da luz. Perco-me a vê-las, quero acendê-las, mas… sombras sem luz são vazio.


A vidraça continua a respirar em mim e eu continuo sentada na mesa. As folhas de papel prontas a receber-me enquanto me arranjo por dentro. Quero oferecer-me bonita, brilhante, feliz.


A bebida tépida aquece-me. Descobre caminhos no gosto, invade-me o paladar. Sou agora do prazer de a saborear. Devagar.


A chuva chega-me no ar que se adensa. No cheiro a terra molhada que passa pela janela fechada. Ainda não é, mas já a sinto na vontade de as nuvens se derramarem em pranto. Sorrio-lhes.


Anda. Que a chuva não tarda. Que o trovão se impacienta e as folhas podem esperar por mim.


Anda. Pus outro copo na mesa desde que te senti aí, rosto colado à minha janela, respirando-me atrás dela.


Anda ver a chuva cair, partilhar a minha manta e sorrir quando as bátegas chegarem para lavar a marca do teu respirar.

11 agosto 2010

RESPOSTAS




Porque é que quando sussurras nasce um grito que rebenta em eco dentro de mim?


Porque me faço ressonância encerrada numa caixa onde o som definha estrangulado por trepadeiras que o enlaçam?


Porque me divido em pedaços cada vez mais pequenos, cada vez mais pedaços dos pedaços que acabei de transformar em pedaços ainda menores?


Vou retalhar o «porque». Incomoda-me poder fazer perguntas sabendo de antemão que as respostas estão trancadas no fim do ponto de interrogação.


Deixo o meu cartão de visita. Para que sejam elas a procurar-me a mim…

04 agosto 2010

CONTEXTOS



As vezes páro para pensar em nada.

Como se não existissem contextos no mundo.

Depois começa a chover realidade.

E ensopa-me.

E não há toalhas que me sequem.

E quando me apercebo….

São minhas as lágrimas que molham

A realidade de alguém

Quando me deixo escorrer nelas

E fico seca num invólucro vazio

A flutuar no nada que consegui

Convidar para o meu pensamento.

30 julho 2010

INGENUIDADE


Puxo a pele, puxo os cabelos, puxo a raiva

Que está elástica e gigante e me envolve

Que me queima, que me rasga e revolve

Que nada limpa, nada emenda nem resolve

Puxo as lágrimas que se esticam para ser rio

Ou se espaçam para ser gotas de suor… frio

Puxo-me em vómito de revolta, de desvario

Puxo a raiva, puxo a pele, puxo os cabelos

Que flutuam à superfície da água do poço

Que me afogo e já quase não me ouço

Estranho murmúrio, resto de grito, mortiço

Largado o sonho à mercê da realidade

Que se negou crua, que se quis verdade

Com injustiça se vela, morto, na eternidade

Puxo os cabelos, puxo a raiva, puxo a pele

Mortalha enrugada da falecida ingenuidade….

25 julho 2010

ALVORADA


Ontem decidi caminhar na alvorada.

Estou cansada da estrada por onde me levam os sinais. Não gosto do SENTIDO PROIBIDO. E abomino o SENTIDO OBRIGATÓRIO. Que se sente o que se quer! Que se sente o que se pode… E quando se pode sentir os nossos passos ficam cegos. Desobedecem ao STOP e desafiam cruzamentos. Deixam-se andar desatentos, alheios às distâncias dos estacionamentos.

Passo os dias entre a estrada e os passeios. Contando os paralelepípedos ou encandeada pelo brilho do alcatrão a estorricar ao sol.

Algumas calçadas são irregulares, ferem-me os pés – egoístas- que tratam de dividir a dor com a alma. E fica molhado o meu rastro nos caminhos. Se quiseres, podes segui-lo, enquanto não me evaporo do percurso…

O alcatrão fere-me o olhar com o cheiro negro e viscoso que traz no brilho que oferece, peganhoso…. Tímido, não conta nada, o olhar. Guarda a luz encandeada e as dores que lhe desperta em cápsulas por detrás do pensamento. Só dou com elas nos dias em que me levanto num pranto e preciso de me livrar de sofrimento.

Às vezes passo por pedra polida. Bem cortada à medida. Lisa no brilho uniforme. E do conforto do andar acabo sempre a pensar na fonte da sua beleza. Quantos cortes suportou, mais a tortura de alisar, para se fazer igual, só mais uma entre tantas que deixamos para trás na pressa de algum lugar. Não quero assim a minha vida.

Acordo quando tropeço. Num desnível de pedra solta. Um susto que agradeço porque me tende a alma a adormecer no percurso. A rocha que me acorda é baça e irregular. Não fosse o meu tropeçar, não me roubaria um olhar. Mas ganhou-me a curiosidade a malandra desnivelada que quase me fazia tombar. Sentei-me, sem pressa, para a apreciar. E mandei o tempo avançar.

Ontem decidi caminhar na alvorada. Ou começar ao contrário, partindo da chegada. Ou inverter a cadência e acelerar em dormência. Ou deixar-me ficar sem ir quando me mandam seguir, a ver a pedra que ousa deixar-se sem aparência, largada em irreverência, quando entro, sem consciência numa rua mal iluminada, que tinha mesmo à entrada um sinal que me avisava de um BECO SEM SAÍDA.

Mas andava na alvorada, no alcatrão sem estrada e nas pedras todas soltas. Decretei um fim aos sinais e às demais convenções, larguei-me a correr sempre em frente, como quem aprende de repente e descobre que afinal sente e… para sair daquele beco… inventei um novo mapa, onde cada rua é só um espaço para desenhar outro caminho à medida de cada passo. E sem sinais da vida.

22 julho 2010

CALMA


Sei que a pele não se troca

Que a carne não se funde

E quando a boca se toca

No beijo molhado, ardente

Anuncia-se um adeus

Do teu corpo encharcado

Ainda nos braços meus

Ao meu, jamais saciado.

No instinto da saudade

Faço colo do desejo

E consolo da verdade

Esperando mais um beijo…

E na certeza que só tem

Quem sente fundida a alma

No mais profundo de alguém,

Digo-te: anda! Com calma…