18 novembro 2010

SOMBRAS

À noite as sombras que me carregam no dia escondem-se nos filamentos das lâmpadas. Têm vergonha do breu. Invejam a negritude da noite. Pálidas, encolhem-se nos fios de tungsténio e imaginam que brilham. Opacas no brilho que não é seu, desafiam no seu íntimo o poder absoluto do sono do Sol. Tudo lhes falha. Menos a certeza de que as horas passarão e o seu domínio será reposto.


Os pulsos ficam doridos, os músculos tensos, o pescoço estala. Espreguiço-me e nasce um sorriso num espasmo. Existo. Ninguém me espera, na noite. Ninguém me sabe, no escuro. Ninguém me avista. Nem às minhas lágrimas, se as quiser soltar para que brinquem por entre as tristezas e rolem preguiçosamente pelo meu rosto. As sombras são vergonhas nos filamentos e o tungsténio protege-me. Não tenho que ser. A não ser o que quer que seja.


Quando amanhece e a luz me encandeia mesmo por detrás das cortinas espessas e corridas, a respiração tolhida assinala o regresso. Já nem luto contra o aperto dessas algemas invisíveis, não me lamento das correntes que arrasto nos tornozelos arranhando o chão num silêncio que só me ensurdece a mim. Já nem sei ser. Sei apenas o que tenho que parecer. E que quando a noite voltar, tenho que deixar a luz acesa. Para que as sombras descansem.

7 comentários:

Maria disse...

Sabes ser, sim! Por isso não tens que 'parecer'. Apenas SER!

Beijo.

A.S. disse...

Vou deixar-te um poema de um dos meus livros. Foi o que me sugeriu este teu belo texto!

Beijos,
AL


TU


TU, que ocultas nos teus olhos a força dos elementos

TU, que no teu sorriso alimentas uma esperança

TU, que nos teus lábios emergem fantasias

TU, que no teu rosto transparece a ansiedade

TU, que no teu silêncio se revelam mil desejos

TU, que em tuas mãos despertam subtis carícias

TU, que em cada gesto dominas o impulso

TU, que sabes ser o tempo a eternidade,
e sabes que a vida não perdoa hesitações,
não temas por mais tempo a realidade
não reprimas no peito as tuas emoções

TU, que sabes existir em tudo imperfeição,
e sabes haver outro horizonte à tua espera,
não pode haver tratado, regra ou convenção
que impeça de viver a tua primavera…

TU, que sabes ser a vida apenas um momento
e sabes que há-de vir a hora da verdade,
solta as tuas velas à mercê do vento
E parte deste cais rumo á liberdade!...

G... disse...

Maria: SER é complicado. Incompreendido. MAs urge!
Beijo

G... disse...

A.S. : obrigada!
Um poema assim no meu «cantinho» de palavras largadas... uma felicidade!
Beijo

FlorAlpina disse...

Palavras que a net transporta qme trouxeram aqui...

G, de...Gostei!
Sombras, silêncio...

Bjs dos Alpes

OUTONO disse...

Cansado...
Aporto por aqui nesta ilha da palavra...e refresco-me com o enleio de um escrever que dimensiona...um prazer de ler.
Beijinho...
Tenho de partir, mas voltarei...um dia...

Nilson Barcelli disse...

Se, por absurdo, ninguém fingisse o parecer, andaríamos todos aos tiros uns aos outros...
É relativamente frequente não se poder ser, principalmente na sociedade e no trabalho. Resta-nos a família... e nem sempre.
Por isso, não estás sozinha... antes pelo contrário...
Gostei da tua reflexão.
Beijos, querida amiga.