15 agosto 2010

VIDRAÇAS




Daqui, de onde estou, vejo a marca nas vidraças. Densa de bruma que se esvazia lentamente. Até ser marca nos vidros de novo. Até se desvanecer outra vez.


Sentada, na mesa só uma vela acesa no desafio à escuridão. Contemplo o copo de vinho e o sorriso que me oferece na cor rubi do líquido. Faço-o girar, confronto-o com a chama, sinto-lhe o aroma. Guardo-lho.


Oiço ao longe um trovão, anunciando chuva e tempestade. Aconchego-me mais ainda na manta que me suporta o frio e dou conta do arrepio.


As sombras querem dançar a cada uivo mais forte do vento, aproveitando a hesitação da luz. Perco-me a vê-las, quero acendê-las, mas… sombras sem luz são vazio.


A vidraça continua a respirar em mim e eu continuo sentada na mesa. As folhas de papel prontas a receber-me enquanto me arranjo por dentro. Quero oferecer-me bonita, brilhante, feliz.


A bebida tépida aquece-me. Descobre caminhos no gosto, invade-me o paladar. Sou agora do prazer de a saborear. Devagar.


A chuva chega-me no ar que se adensa. No cheiro a terra molhada que passa pela janela fechada. Ainda não é, mas já a sinto na vontade de as nuvens se derramarem em pranto. Sorrio-lhes.


Anda. Que a chuva não tarda. Que o trovão se impacienta e as folhas podem esperar por mim.


Anda. Pus outro copo na mesa desde que te senti aí, rosto colado à minha janela, respirando-me atrás dela.


Anda ver a chuva cair, partilhar a minha manta e sorrir quando as bátegas chegarem para lavar a marca do teu respirar.

4 comentários:

Maria disse...

Se agora chovesse convidava-te para te pores debaixo da minha manta. Talvez viesses e ficasses, como dantes...

Ia voando, mas aterrei. A tempo... :)))

Beijo, G.

G... disse...

Aterraste bem...
Obrigada, Maria.
Beijinho

Nilson Barcelli disse...

Achei este texto maravilhoso.
Respirei-o e sorri...
Querida amiga, uma semana boa para ti.
Um beijo.

G... disse...

Nilson, querido amigo...
Obrigada!
Devolvo os votos de boa semana.
E o beijo