20 março 2010

DOR DE DAR A FELICIDADE



Dezassete anos, um filho nos braços, mala na rua, muito medo e pouca esperança por bagagem. Olhos negros, rosto de menina em corpo precocemente torneado, cobiça do patrão. Gravidez jamais sonhada, início de pesadelo: ''Criadas com filhos são uma carga de trabalhos, por isso, rua!''.

Nem pai, nem mãe, ninguém. Só uma prima afastada e viúva, com filho solteirão. Comida e roupa lavada em troca de uma escrava para todo o serviço, incluindo a diversão do mocetão. Existisse inferno no mundo e seria aquele: explorada, usada, violada no corpo e na alma. Sofrimento imenso, suportado pensando no filho, fruto dos apetites patronais, mas nem por isso menos amado. Dor, contudo, raramente traduzida em lágrimas. Algo lhe dizia que as deveria guardar para mais tarde.

A prima faleceu, deixando pouco mais que dívidas e o filho inútil por herança. Inútil, mas competente para a embuchar de novo. Amostra de gente, mas forte o suficiente para a espancar e exigir o aborto. Não! Assassina, jamais! Porrada, fome, medo, suportaria tudo, mas não abortaria.

Nasceu pequena, fraca, mas linda, dona de imensos olhos negros. Inocente, vê a pureza punida: ferozmente indesejada pelo rapagão, escapou por um triz à queda do terceiro andar, salvou-se ''in extremis'' do abandono junto ao caixote do lixo, sobreviveu à fome ditada pela gulodice do pai que, às escondidas, lhe bebia os biberões, enquanto a mãe lavava escadas para sustentar a casa.

O medo constante da pancada é suplantado pelo pânico, pelo pavor da morte da filha, provocada pelo monstro alcoolizado. Recomendações, imensas ao irmãozinho, para olhar pela bébé, para correr a avisá-la caso o pai saísse de casa com ela. Uma ansiedade constante, que a massacrava dia e noite, onde quer que estivesse. Gritos, discussões, pedidos, rogos, de nada serviam. Terminavam em hematomas por todo o corpo, dificuldade acrescida para trabalhar, medo crescente do ódio escrito no olhar ébrio, ódio que alastrava a ambas as crianças. A menina definhava, pouco a pouco, não obstante o esforço da mãe. Não crescia, chorava constantemente, estava magra.

Naquele dia, a mancha negra bem visível sobre o rosto não lhe permitiu fugir à confissão, perante a curiosidade natural e a preocupação sincera da vizinha. Surgiu a proposta e as lágrimas guardadas, acumuladas, encharcaram o sim altruísta. Aí, sim, chorou, àgua e sal que, na fuga, arrastavam a maior parte da sua alma. Vitória dorida, que abriu chagas, essa do amor sobre o egoísmo. Vitória com taça de dor, troféu festejado com tristeza infinita.

Acabou por fugir para a terra natal, no recôndito interior alentejano, aproveitando um coma alcoólico do primo afastado. Casou, teve mais filhos, de novo companheiros de drama: bebedeiras e tareia, pancada e embriaguez. Tudo como antes? Não. Algo mudou na sua vida, para sempre. A marca não se apaga, muito embora mantenha contacto com a sua princesinha. Sim, uma princesa feliz, alegre, inteligente, linda. Mandam-lhe fotos dela, roupas e brinquedos que já não usa para os outros pequeninos.

Sofreu muito. Dor maior do que a morte, a de dar um filho. Mesmo sabendo ser a melhor solução. Mesmo consciente de que a menina vive feliz, longe da sua miséria. Todos os anos falava com ela. Telefonava-lhe no dia dos seus anos. A menina sabia de tudo, acharam melhor que soubesse. Ao telefone, embora fria, permitia que lhe chamasse filha. ''Sabes quem fala? É a tua mãe. Parabéns, filha!''. Ah! Momento sublime, aquele em que falava com ela e lhe chamava filha, em que a menina respondia com um obrigado tímido.

14 anos e o fim: aniversário e telefonema. Felicidade efémera, ansiada durante o ano inteiro. Dor quase imposível, de mil mortes, na fuga à resposta habitual. O agradecimento costumeiro substituído por frase mortífera, espada que trespassou todas as suas convicções, certezas e intenções: ''Mãe? Ah, já percebi. Quer falar com a minha mãe. Um minuto, vou chamar!''.

Dor de mil abandonos condensada num instante, instante de porta que se fecha definitivamente. De porta trancada conscientemente, deliberadamente, com mensagem escrita: ''deixa-me em paz!''

Nunca mais telefonou. Os telefonemas? Egoísmo puro, opondo-se ao amor desinteressado que mostrara quando tomou a ''decisão'', encharcada em lágrimas nunca mais vertidas. Para não sofrer, para sofrer menos, fazia sofrer. O seu momento de felicidade anual transformava-se num anual mau-estar da sua princesa. Dali para a frente a sua menina teria apenas uma mãe. E não seria ela.

Nova decisão difícil. Dor? Imensa. Igual ou maior que a sentida no momento em que colocou a sua pequenina -  com apenas dois meses - nos braços de alguém que a chamaria de filha, que a veria crescer, que a faria feliz. Agora era a princesinha que lhe mostrava que ela já não era sua mãe, que tinha outra. Que só queria ter uma.

A ideia de nunca mais saber nada dela, de jamais voltar a ver uma foto,vvoltar a ouvir a sua voz, quase a enlouquece. Mas decretou o fim do egoísmo, aceitou a ignorância total, o corte que a menina pediu.

É difícil, muito. Há anos que nada procura saber. Nunca mais escreveu, não mais telefonou, matou-se para a menina, enroscou-se numa dor que a espreita no olhar dos seus filhos, que fala com ela no riso das crianças, que dorme junto a si na ausência etílica do marido pela noite fora. Essa dor omnipresente segue-a como uma sombra interior, que não se reflecte, mas existe. Dor suportada não pacífica, mas resignadamente, porque é dor de dar a felicidade a quem ainda pode ser feliz.
A única maneira ao seu alcance para mostrar à sua princesinha o quanto a ama. Tanto! Tanto!...

3 comentários:

O meu diário disse...

Olà G...

Que estranho esta história, já ouvi uma parecida há uns tempos atras...

G... disse...

Há tantas parecidas... ;-)
Bom fim-de-semana!

mariam disse...

G...
Comovente e de uma enorme força, esta tua crónica!

Muitos parabéns.

Posso dar-te um abraço imenso??

e um sorriso amigo :)
mariam