25 julho 2010

ALVORADA


Ontem decidi caminhar na alvorada.

Estou cansada da estrada por onde me levam os sinais. Não gosto do SENTIDO PROIBIDO. E abomino o SENTIDO OBRIGATÓRIO. Que se sente o que se quer! Que se sente o que se pode… E quando se pode sentir os nossos passos ficam cegos. Desobedecem ao STOP e desafiam cruzamentos. Deixam-se andar desatentos, alheios às distâncias dos estacionamentos.

Passo os dias entre a estrada e os passeios. Contando os paralelepípedos ou encandeada pelo brilho do alcatrão a estorricar ao sol.

Algumas calçadas são irregulares, ferem-me os pés – egoístas- que tratam de dividir a dor com a alma. E fica molhado o meu rastro nos caminhos. Se quiseres, podes segui-lo, enquanto não me evaporo do percurso…

O alcatrão fere-me o olhar com o cheiro negro e viscoso que traz no brilho que oferece, peganhoso…. Tímido, não conta nada, o olhar. Guarda a luz encandeada e as dores que lhe desperta em cápsulas por detrás do pensamento. Só dou com elas nos dias em que me levanto num pranto e preciso de me livrar de sofrimento.

Às vezes passo por pedra polida. Bem cortada à medida. Lisa no brilho uniforme. E do conforto do andar acabo sempre a pensar na fonte da sua beleza. Quantos cortes suportou, mais a tortura de alisar, para se fazer igual, só mais uma entre tantas que deixamos para trás na pressa de algum lugar. Não quero assim a minha vida.

Acordo quando tropeço. Num desnível de pedra solta. Um susto que agradeço porque me tende a alma a adormecer no percurso. A rocha que me acorda é baça e irregular. Não fosse o meu tropeçar, não me roubaria um olhar. Mas ganhou-me a curiosidade a malandra desnivelada que quase me fazia tombar. Sentei-me, sem pressa, para a apreciar. E mandei o tempo avançar.

Ontem decidi caminhar na alvorada. Ou começar ao contrário, partindo da chegada. Ou inverter a cadência e acelerar em dormência. Ou deixar-me ficar sem ir quando me mandam seguir, a ver a pedra que ousa deixar-se sem aparência, largada em irreverência, quando entro, sem consciência numa rua mal iluminada, que tinha mesmo à entrada um sinal que me avisava de um BECO SEM SAÍDA.

Mas andava na alvorada, no alcatrão sem estrada e nas pedras todas soltas. Decretei um fim aos sinais e às demais convenções, larguei-me a correr sempre em frente, como quem aprende de repente e descobre que afinal sente e… para sair daquele beco… inventei um novo mapa, onde cada rua é só um espaço para desenhar outro caminho à medida de cada passo. E sem sinais da vida.

10 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Respirei fundo uns 3 minutos para não comentar a quente...
Ainda assim, este teu texto/ensaio é soberbo. Oscila entre a poesia e a prosa aparentemente surrealista. Só que de uma realidade cortante. Muito mais haveria para dizer do conteúdo, mas basta a forma para se ficar enebriado com as tuas palavras.
Parabéns. Este será, porventura, o melhor que já escreveste até hoje, prosa ou poesia (mas sei que não li tudo que escreveste...).
Só que este teu texto poderia ser assinado por qualquer autor consagrado que não deslustraria a origem.
Querida amiga, boa semana.
Beijos.

G... disse...

Nilson: acho que vou ficar a respirar fundo umas 3 horas para não responder a quente... Não! acho que 3 horas é curto...
Obrigada!
Um beijinho, amigo querido

Cristiano Contreiras disse...

Belo o espaço!

Gostei da sensibilidade, da maneira de expor intensidade poética por aqui!

te sigo, G!

G... disse...

Cristiano: obrigada.

AnaMar (pseudónimo) disse...

Rendida aos (teus) sinais.
Belo texto.

G... disse...

AnaMar: obrigada!
Rendida ao teu gostar...

Mar Arável disse...

Caminhar na alvorada

pois claro

Só me pergunto porque nunca

nos encontrámos

ainda

Força

G... disse...

MAR ARÁVEL:quem sabe um dia!
Obrigada!

Filoxera disse...

Olá.
Estou a ler-te como quem saboreia um vinho de reserva, uma paisagem que não se repete, um cheiro que embriaga e se quer reter.
Delicioso, este post.
Até breve.
Beijo.

G... disse...

Filoxera: obrigada...
Beijinhos