19 julho 2010

PERDÃO

Abriste os olhos num perdão negro. Apeteceu-me mergulhar-te e encharcar-me do alcatrão líquido, breu viscoso e lamacento. Deixar-me afundar no pântano do teu olhar, com a consciência a absorver-me. Sem deixar as mãos procurar salvação. Sem que o grito se fizesse socorro, sem que o medo se fizesse instinto e sobrevivência.


Tantas as mágoas, não me consegui afogar. Encontrei fundo firme, teimoso. Insistiu em repudiar-me. Escorri-te dos olhos em lágrimas cristalinas, escondida na superfície transparente. Apenas reflexo do céu que estava azul e das nuvens que não queriam ser cinzentas nesse dia.


Deixei-me sentada, as pernas cruzadas, decidida a esperar. Esperei até perceber que tinha que descobrir o que havia de esperar. Se um perdão lamacento e sem espaço para mim ou o reflexo do sol nas nuvens que se deixam flutuar. Fechei os olhos, permiti-me descansar. De ti, de mim, das pernas que – cruzadas – me pediam para andar.


Vi uma estrada no chão com um traço incerto. Pus-me a seguir os riscos num caminho em aberto. Ficaram juntos, aos poucos, contínuos na estrada. Foi-me mais fácil segui-los, acelerei a passada. E deixei-me à deriva naquela linha traçada.


Fechei os olhos num arrependimento sem cor. Pulsava-me no corpo uma angústia, latejava-me uma dor, uma fúria de desencanto que não encontrava buraco onde se pudesse esconder. Acho que queria esquecer que talvez quisesse morrer. Fazia por estar, sem chegar a ser.


Arrumei o cansaço na mochila e segui. A linha branca acabara, mas o rumo era firme: tinha como destino a estação desactivada da alma cheia de nada. E na ideia, depois da partida, nada trazia, só a chegada.


Pés rasgados do traço e gastos no cansaço. Corpo vergado dos dias percorrendo o espaço entre a lembrança de ti e o meu embaraço. Boca sedenta da água que não bebia, rosto entregue à expressão triste da agonia. Que trazia, e sentia e às vezes não sabia… Abri os olhos num perdão desejado. Procurei os teus – estavam mesmo aqui ao lado. Não lhes vi negro ou breu, e no sítio da lama havia a saudade de quem ama.


- Perdoas-me? – eu.


E tu:.


-Encontrarás o meu perdão logo, logo, a seguir ao teu...

9 comentários:

Maria disse...

Não sei comentar esta prosa poética. Apenas posso imaginar o que se sente quando se escreve assim...

Beijo, G.

G... disse...

MARIA: é um reflexo de desilusão, desencontro, amor e...perdão. O dos outros. E o nosso, o de nós próprios, que tem que vir primeiro, porque abre caminhos na alma.
Beijinhos

Mar Arável disse...

O perdão pode ser um caminho

nobre
pode ser

Lídia Borges disse...

Um texto pleno das emoções que se fazem poesia dentro de um sentir complexo:"Fechei os olhos num arrependimento sem cor. Pulsava-me no corpo uma angústia, latejava-me uma dor, uma fúria de desencanto que não encontrava buraco onde se pudesse esconder".
A complexidade do sujeito lírico comum à maioria dos poetas.

L.B.

G... disse...

MAR ARÁVEL: pois pode...
às vezes até deve...

G... disse...

Lídia: obrigada.
Beijinhos

OUTONO disse...

Já o comentei no FacebooK. Trata-se de um escrever muito bem arquitectado....AS palavras mesmo impossíveis...ganham espaços...na tua criação...e assumem-se possíveis na tua pena.
Parabéns!

G... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
G... disse...

G... disse...
OUTONO: essa tua generosidade... sabes que as minhas palavras a apreciam muito? Porque é tua, que escreves tão bem....
Obrigada, amigo.
Beijinho