17 fevereiro 2010

BAILE DAS SORTES, 1946

A semana teima em não passar. A expectativa empata os minutos, como se todos os relógios do mundo fossem atacados por uma incrível preguiça. É na sexta feira, na sexta! Não se fala noutra coisa na pequena vila. Por entre o branco reluzente das casas, enfeitadas da alegria roubada ao azul do rodapé, comenta-se o acontecimento. Grande evento: acontece só uma vez por ano, e é quando é! No interior fresco, à claridade de janelas e postigos, dão-se os últimos pontos, remates finais do fatinho novo, novinho! O primeiro fato de homem! E nada de engordar: também tem que servir para o casamento. A vida está má...
Meninos que são, querem ser homens. Já falta pouco. Fatiota à maneira: fato novo, camisa nova e sapatos! Sapatos, sim senhor! Com a nova vestimenta, passam a poder rivalizar com os outros, com os homens, e dançar com todas as raparigas do baile. R-A-P-A-R-I-G-A-S!!! Chega de dançar só com as gaiatinhas! Só se fala da festa. Para receber os heróis.
Junta-se dinheiro, partem-se mealheiros, pede-se emprestado. É preciso, os moços não podem fazer má figura em Lisboa, era o que faltava! Ah!, como eles crescem depressa. Ainda ontem eram cachopos de colo, gaiatinhos. Agora... olha p'ra eles a fazer cigarros às escondidas, a namorar, a trabalhar e... ai, senhores, que emoção: vão tirar as sortes! As sortes! Vão a Lisboa, para a inspecção militar. Com sorte, são aprovados e depois... depois mandam-nos para longe, para os quartéis espalhados por essas terras fora. Voltam à vila fardados, vaidosos, arrancando suspiros às donzelas casadoiras. Vêm uns senhores!
Alguns seguem vida na tropa. Ficam p'ra lá. Não fogem à saudade, nem às origens. Esquivam-se ao trabalho duro da ceifa, da azeitona, do pastoreio. Muito trabalho e pouco dinheiro, não querem destino igual ao do pai, do avô, do bisavô...
A história repete-se, quase anualmente. Eufóricos, os moços! A tropa é coisa séria! Ali, sim, são homens de verdade, são gente, deixam de ser gaiatos. Novidades, ui!, tantas! Hão-de trazer muitas para contar à amada, enquanto namoram da esquina para a janela, com a mãe à porta, de vigia.
As sortes são o início de uma nova vida. E uma grande honra, se ficarem aprovados para o desempenho do serviço militar! No Salão do Grémio Recreativo Arronchense, afixarão uma placa de bronze, perpetuando o evento, com seus nomes gravados:
''Ao dia 27 de Outubro do Ano da Graça de 1946, Ambrósio Arranhado, Isaltino Grilo, Manuel Farinheira, Augusto Morcela e Gregório Pintassilgo, valorosos Homens da nossa bela vila de Arronches, foram admitidos nas Forças Armadas da República Portuguesa, servindo assim o seu país, no cumprimento do Serviço Militar Obrigatório.
Singela homenagem do povo arronchense.''
Muda a data e os nomes, mantém-se a tradição e o texto, como atesta a grande parede do salão de baile, repleta de pequenas placas idênticas. Entre as placas, o baile, o fato novo, a euforia popular que agita a pasmaceira usual, desliza o tempo e chega finalmente a sexta feira, o grande dia!
Adeus, adeus meninos! Fato novo, medo e esperança, que bem cheguem e bem voltem. No regresso, mais homens que gaiatos, festeja-se a aventura, ritual de iniciação, com bom vinho e dança pela noite fora. A vila em peso, de fato domingueiro, saúda os heróis no Baile das Sortes. Música, maestro! E prepare-se o coração para as saudades, que é tempo dos cachopos, agora homens, irem p'rá tropa. P'rá tropa, senhores! Ainda ontem os gaiatinhos andavam de gatas...

2 comentários:

cristal disse...

G...

Como na "Moda das Sortes" dos Rio Grande:"...Fui às sortes e safei-me direito que nem um fuso..."
E sabes? Fez-me recordar a planície alentejana, o cheiro do azinho e as gentes....as gentes do Alentejo! Que saudades!!
Adorei amiga e...viajei!

Beijinho Grande

G... disse...

Então apanhaste-me o comboio numa das primeiras estações e foste comigo percorrer as histórias dos meus tios, dos meus tios-avôs, das minhas tias que namoravam à janela ou à porta com as mães à escuta. Paraste nos apeadeiros da pobreza sadia,das migas e das açordas, do cheiro dos coentros frescos e das azeitonas, dos olhares convertidos em calor - só nos bailes - quando mãos se tocavam e icendiavam mais vontades que muitos beijos permitidos. Aposto que sim, que fizeste uma boa viagem....
Beijo amigo e obrigado pela bela companhia que me fizeste!