16 fevereiro 2010

A ESCOLHA

Os seus olhos percorriam o espaço, olhavam o céu, o ondular lento do rio. Desviavam-se frequentemente, nervosamente, em direcção ao caminho de terra batida. Debaixo do braço, as poucas coisas que podia dizer que eram realmente suas: uns sapatos, umas calças rasgadas e uma camisola surrada e gasta. Sabia que era o fim de uma etapa. Mas temia a etapa seguinte. Assustava-o o futuro que não conhecia, por pior que o passado tivesse sido. Bom ou mau, era o seu ambiente. E agora, como seria? Teria que tomar banho todos os dias? Horários fixos para as refeições? E dinheiro? Sim, dinheiro para comprar uma pastilha, um chocolate, aquelas coisas que via nas montras, com dinheiro no bolso, o suficiente apenas para comprar os papos-secos para o almoço. Não se podia dar ao luxo de o gastar em gulodices! Uma coisa era certa: não mais teria que se sentar na estação do Rossio, fingindo ser aleijado, refugiado da Jugoslávia, ceguinho, deficiente, enfim, o que rendesse mais trocados. Sim, porque isso de pedir esmola é uma arte, é preciso saber para que lado estão os ventos, que é como quem diz, as sensibilidades dos lisboetas.
Magicava insistentemente num problema: não tendo que pedir esmola, seria difícil passar os dias assim, a olhar para as moscas, sem nada que fazer. Decidiu que perguntaria aos outros meninos o que fazem para passar o tempo. Ou talvez o obriguem a ir à escola. Isso é que ele dispensava. Ficar fechado tanto tempo dentro de uma sala, sem poder correr, descobrir coisas... É melhor ir até às fontes de Lisboa tomar banho, tentar caçar pombos, ou entrar no cinema às escondidas...
São quase nove horas. A hora combinada. Pronto! Começou a tremedeira. Até parece que vai roubar uma maçã na loja da D. Margarida. Ela pensa que ele nem desconfia, mas ele sabe que ela faz aquela fita toda só para assustar, para não o habituar mal. Ela até põe sempre o caixote das maçãs perto da porta! Agora nunca mais vai precisar de roubar maçãs. A D. Margarida vai ter saudades, de certeza!
Já passa das nove e nada. Se calhar não aparecem. Talvez fosse melhor se não viessem. Afinal... Mas tem que ser, é melhor, como a outra senhora explicou. Vai ter melhores condições, mais segurança – um futuro! Só maravilhas à sua espera! Mas então porque é que o coração está apertado, porque é que as pernas tremem, porque é que o papo-seco lhe anda às voltas no estômago?
Chegaram, finalmente. O carro é enorme! A senhora da Assistência Social é bonita. Vem vestida de preto. Eles também vieram. Ela é loira, já não muito jovem, mas tem um sorriso simpático. Ele tem um ar austero. Assusta-o. Tem ar de médico, mas é empresário. E agora? Não sabe o que fazer! Eles caminham na sua direcção. Desculpam-se pelo atraso com o trânsito infernal. Ele sorri, tímido. Não consegue articular uma única palavra, limita-se a encolher os ombros. Convidam-no a entrar no carro, falam-lhe da vida de sonho a três que começa naquele momento. Vai ter de tudo: muito amor, carinho, um quarto só para ele, brinquedos, um explicador, um motorista para o levar à escola. Vai fazer muitos amigos. Pode levá-los lá para casa, para a piscina...
Eles falam, mas ele está longe. Empurram-no na direcção do carro, mas as pernas não lhe obedecem, para além da ansiedade e do receio. Olha para trás. Vê o casebre quase a cair, a janela entreaberta, os arbustos desordenados, até as moscas coreografando uma despedida e desejando-lhe tudo de bom.
Não imaginou que fosse tão difícil. E seria mil vezes pior se os pais e os irmãos estivessem ali - não estavam, felizmente! Despediram-se antes e foram embora. Não teriam coragem de o ver partir, embora achassem que era o melhor para ele, a única forma de ter tudo o que não lhe podiam oferecer. E manteriam o contacto, pois claro!
A Assistente Social passou-lhe a mão pela cabeça quando viu as lágrimas brincar nos seus olhos. Disse-lhe para ter coragem. Não teve - ou terá tido?... Não quando viu o seu irmão pequenito correr na sua direcção, agarrar-se-lhe às pernas e, com a ingenuidade dos seus quatro anos, dizer-lhe para irem jogar à bola. Virou costas e correu na direcção dos pais e das duas irmãs, escondidos atrás da moita de onde surgiu o pequeno Miguel.
Teve pena daqueles senhores, mas não seria capaz de deixar de tomar banho nas fontes, de caçar pombos e de ensinar o irmão a roubar maçãs na loja da D. Margarida. Se calhar não se habituaria a usar sapatos e de que lhe valia a piscina, se não sabia nadar? O pior era a fome, mas isso, era uma questão de aperfeiçoar a arte e descobrir novos truques para comover os lisboetas... E depois, sem ele por perto, quem ensinaria o "puto" a jogar à bola? Afinal, as mulheres, de futebol, "não pescam nada"!

3 comentários:

Truta disse...

Gostaria muitas vezes de compreender a tua mestria de brincar com as palavras e com os sentimentos, mas infelizmente ou felizmente és muito mais que tudo... e eu quem sou? Apenas alguém que se apaixona, alguém que ama e alguém que vive...
Pela primeira vez, acho, que percebi à primeira as tuas palavras, o teu momento de inspiração e o seu significado... sabes porquê? porque me correu uma lágrima, uma única lágrima acompanhada por um arrepio ao ler as últimas palavras deste texto...
Continua porque és muito boa nisto e, acredita, que estes textos fazem muitas pessoas deixar cair lágrimas singelas e esboçar pequenos sorrisos de alegria frente a um monitor de computador.
Parabéns!

mariam disse...

G...

emocionaste-me!

em três palavras:
___ belíssimo ___.
_______parabéns_____.
_____________ Continua ______ !

e... gostei muito de ver aqui o quadro!

beijinhos e o meu sorrso :)
mariam

G... disse...

Obrigado!
São as vossas almas que são amplas e têm espaço para descobrir a beleza das coisas pequeninas. Como estas coisas que me abandonam e ganham letras, palavras, parágrafos e significado!
Beijos!