25 janeiro 2010

A GOTA



As várias gotículas foram-se libertando dos poros da sua pele. Quando a união fez a força, ganharam o direito à gravidade e a uma identidade. A gota deslizou por entre o cabelo sedoso, junto à nuca, e um arrepio percorreu-lhe o corpo. Menos pela gota do que pela memória de uma unha que pouco antes aflorara a linha revolta do seu cabelo naquele preciso local. Lentamente, meio arranhando, meio acariciando. A meio...

Indiferente, arrastada por aquela força invisível, a gota aflorou-lhe a pele do pescoço, normalmente oculta pelo colarinho da camisa. Apercebeu-se, tal como ela o fizera com gula, da textura suave, do odor doce misturado com o sabor salgado do suor anterior. Fez-lhe cócegas em jeito de provocação, ciumenta dos lábios entreabertos e do caminho que fizeram antes de si.

Aproveitou a ausência de camisa e espreitou cuidadosamente para a omoplata oferecida – muitas outras haviam encontrado o seu fim precisamente ali, onde um colarinho alvo fazia de porteiro inexorável da sua intimidade. A pele nua era ali mais branca, mais macia. Apetecia rebolar preguiçosamente por entre os poros e os sinais, pequenos e espalhados ao acaso, como estrelas num céu com cores invertidas, ou como se alguém os tivesse lançado em jeito de pitada de graça.

Como não despertasse suspeitas, aventurou-se para além do limite do razoável, seguindo a linha das costas, irregular onde as vértebras se encadeiam, imaginando-se um rio que corre no mais maravilhoso dos leitos. Outras se haviam extinguido ali... provavelmente nascidas nas imediações. Rastros de sal na pele já seca denunciavam a sua fugaz existência. Na pequena curva antes do cóccix, fez-se lago, sem a ajuda da gravidade. Ali adormeceu, feliz.

Um movimento acordou-a. Pouco de si tinha perdido, mal se evaporara. E a curiosidade despertara agravada. O que encontraria para além das costas amplas, tranquilas, oferecidas, pontilhadas de estrelas inversas? Até onde a ousadia levaria uma simples gota de suor?

Sentiu-se rolar, num movimento lento e a euforia tomou-a perante a possibilidade de explorar um pouco mais, de ir mais longe... Não pôde perceber que dois olhares renasciam, misturados de desejo e vontade, sincronizados num sentimento, abrindo sorrisos e beijos. Teria saciado a curiosidade, não fora a mão dela, ávida, soltar-se-lhe do cabelo ainda húmido e revolto para descer lentamente ao longo dos sinais tão bem desalinhados das suas costas, sem perceber sequer que uma gota curiosa estava no seu caminho…

Um comentário:

mariam disse...

G...

Tenho estado a 'ler-te' ! vim subindo os degraus um a um, devagarinho, hoje com um pouco mais de tempo no meio do 'emaranhado' da vida. É bom 'ler-te' ! ACREDITA :)
A tua escrita é uma mistura de alegrias e fúrias, desejos e pavores ...

Detive-me neste, é uma 'mão-cheia'de ternura e sedução. Parabéns!
Amanhã continuarei o passeio :)

um sorriso :)
mariam