20 maio 2010

PASSOS DESCALÇOS



Caminho.

Pelos caminhos certos. Referenciados. Mapeados. Conhecidos. Seguros.
Nos passos.
Abandono-me.
Nos braços que me erguem – deixei os sapatos no chão! – nas mãos que me guiam a alma.
Nos espaços entre os passos que os sapatos descalços continuam a trilhar.
Mecânicos. Sempre em frente, sentido obrigatório, pára!
Ou deixa-os ir, se não sabem que aqui fiquei.
Neste campo florido sem veredas pisadas, sem flores quebradas, vergadas sob o peso de alguém. Onde tenho as mãos floridas, onde os pés se querem raiz em terra fértil, feliz!
Estás ai?
Sob as searas que o vento afaga, que se deixam pentear e que dançam para lhe agradar?
No lilás que as tinge, que as priva do seu dourado, para melhor as oferecer ao luar?
No ecrã azul do Céu, onde as nuvens são sombras pintadas ao contrário, porque não o conseguem desligar?
Os sapatos!
Os sapatos… Deixa-os ir, não sabem deambular!
Ergue-me mais alto. Nos teus braços, nesse abraço onde me arrastas nesta viagem de almas.
Quero ver o mar para além do xadrez de oliveiras, do tabuleiro pintado de todas as cores.
Lá ao longe, sinto-lhe a espuma. E o sal que me quer depositar nos lábios depois de cada beijo, no fim de cada desejo enrolado na força com que as ondas se rendem.
No molhado que fica na areia, suor efémero e repetido a cada onda, a cada êxtase de partilha e amor, condenado a sê-lo enquanto o mar for inquieto e a alma for calma….
Encontram-se sempre no mesmo lugar, imunes ao tempo que se esquece de por lá passar.
Vivem da impermanência de uma comunhão repetida, impossível de eternizar.
O beijo é um segundo, o abraço é outro e nasce logo a saudade para os celebrar.
Embala-me.
Nos braços teus, que se não cansam de me trazer vagabunda e descalça, num não caminho, num trilho escondido atrás do olhar.
Mostra-me o nosso reflexo – inventa um lago onde nos pintar! Um lago com ligação ao mar. De braços abertos – incansáveis, como os teus – a todas as lágrimas perdidas e sem lugar.
Para que nele se possam aquietar. Ganhar novo brilho e fazer-se mar. Pelo caminho secreto que soubeste criar.
Anda, que tens forças – ultrapassa o bando de andorinhas – e faz-nos voar. Que vamos chegar antes delas à Primavera. Que lha vamos inventar para dar sentido ao seu migrar.
Quero ver o sol de perto.
Olhar-lhe bem para a luz e perceber se brilha assim porque sabe amar. Perguntar-lhe onde lhe nasce tanto calor para partilhar. Oferecer-lhe água para se refrescar.
Se eu adormecer meu amor, nos teus braços, derramada de tanto amar…
Não me devolvas os passos.
Não me calces os sapatos.
Aconchega-me no teu colo.
E deixa-me ficar.
A sonhar!



10 Maio 2010

8 comentários:

mariam disse...

G...

belíssima esta caminha ao teu interior... _ paradoxais são as nossas vontades _ :)

gostei !

bom regresso!
o meu sorriso amigo :)
mariam

Pedro Branco disse...

Os meus passos são poemas de Outono
Folhas caídas e abandonadas no chão.
Palavras repetidas, vozes sem dono
Com que pinto um caminho de ilusão
Os meus passos trazem-me um calor demais
Sempre que o vento me falta outra vez.
E por isso, sempre que fico e te vais
Me deixo cair numa tela de dor que ainda ninguém desfez...
Os meus passos são vagabundos soltos e sem sorriso
Sem destino, sem paragens... sempre em frente!
Porque cada pedaço desse caminho que piso
Na saudade transformado fica frio e quente...
Os meus passos vão e vêm como um conto de fadas
Carregando memórias, desesperos e cansaços...
E eu, simples mortal de palavras aprisionadas
Acabo por me prender nos meus próprios passos!

G... disse...

Mariam: sao viagens ao sonho e fantasia....
Obrigada amiga!
PS: teclados americanos, os piores inimigos da lingua portuguesa.
Beijinhos

G... disse...

Pedro:
Se os meus passos abrem caminho aos teus... so tenho que me afastar para os deixar passar.
Obrigada, e sempre bom encontrar palavras tuas. Aqui entao, e uma grande alegria!

Os acentos roubou-os o teclado americano. Sorry

Mar Arável disse...

Passo a passo

na memória dos caminhos

Maria disse...

Fiquei sem jeito, sem palavras e sem sapatos para te acompanhar nesta caminhada. Tão intensa.
E depois o Pedro já escreveu tão bonito...

Um beijo, G.

G... disse...

Mar Arável:
E nos caminhos sem memória se desenham os passos.
Obrigada.

G... disse...

Maria:
É fácil: vem descalça. Dá-me a mão e depois da longa e libertadora caminhada, sentamo-nos e deixamos as palavras (lindas e que muito me honram!)do Pedro embalar-nos.
Vens?

Beijinho