31 maio 2010

ARAME FARPADO

Estou?

Algodão doce.

- Quem fala?

Veludo

- A minha mãe?

Seda com areia.

- Quer falar com a minha mãe?

Lixa.

- Um minuto, vou chamá-la!

Arame farpado.

A manhã corria veloz, com o tempo zombando da ansiedade costumeira. Os minutos encavalitavam-se e desmoronavam-se em horas fugidias. E as folhas tinham todas duas páginas, letras pequeninas, diminuindo mais e mais, de propósito para atrasar a leitura. Um dia normal, afinal. A menina que tinha que o ser lutando pela perfeição.

Já o era, não sabendo, e ainda assim lutava. Já intuía a expectativa. Já a decifrava em todos os olhares. Já a colava lá no alto da fasquia, sempre mais alta. Sempre com a sensação de que a vara se partiria no auge do voo e que não haveria colchão para amortecer a queda.

Tudo planeado. Controlado. À prova de falha. O teste mais tarde, a nota acima da média tarde depois do mais tarde, o reconhecimento escondido num olhar fugidio logo a seguir e uma nova expectativa, ou uma velha expectativa, imediatamente posterior. Sem rede. Rotina.

Menos o telefone, na sua estridência, no TRRRRRIIIIIMMMM TRIIIIIIIMMMMMMM metediço. Trrrrriiiiiiiimmmmmmmm!!!!!!

Arame farpado: 14 anos e um teste a seguir e um nervoso miudinho, mais miudinho do que o costume, porque normalmente era uma miudinha com nervoso e não o contrário.

Lixa: 13 anos e nenhum evento em especial, para além de ser o dia, a hora, sempre o dia e a hora em que o telefone tocava e a mão se crispava e o estilhaçaria se ao menos os dedos pequenos tivessem a força necessária. Anualmente, a alegria estilhaçada pelo negro da caixa que tocava e que a tocava na ferida que não sabia sarar.

Seda com areia: 12 anos e um Juiz, lá no alto e negro num vestido que o vestia de imponência e a despia de defesas. «Com quem queres ficar, minha menina? Com os teus pais adoptivos ou com os teus pais biológicos?». Solene, o som da decisão, peremptório. Simples porque não havia o que decidir. «Com os meus Pais. Quero ficar com os meus Pais». Depois de arquear as sobrancelhas numa moldura pintada de impaciência, depois de apontar - dedo em riste na direcção - o Juiz, que devia ser inteligente lá percebeu quem eram os Pais. Como se pudessem ser outros! Como se fosse preciso dizer….

Veludo: 8 anos e a inocência é macia. Mas como o veludo tem reverso, o avesso do veludo é exigência. De perfeição. O que dirão os outros, se os deixar ficar mal? Imaculada, tens que ser um exemplo, uma decisão acertada. Veludo na falta de consciência e consciência da diferença.

Algodão Doce: porque é doce a inconsciência, a liberdade de nada saber, de nada intuir, de não se imaginar sequer que se espera sempre algo de alguém. Mesmo que não pareça. Doce a liberdade de ainda poder não ser.

- Estou?

- Quem fala?

- É a tua mãe, filha.

- A minha mãe?

- Parabéns, minha filha! Catorze anos! Parabéns!

- Quer falar com a minha mãe?

- Mas… filha, eu sou….

- A minha mãe não é? Deve querer falar com a minha mãe. Um minuto: vou chamá-la! Mãaaaaaeeeeeeeeeeeeeeeeeeee! Ó mãe! Anda depressa. Há uma senhora que quer falar contigo.

Engraçado…O Juiz perguntou. E ela apontou. Com o dedo biológico em riste, escolheu numa escolha que não o era. Não hesitou, não tremeu. E não se enganou. Usou a bússola afectiva, o norte do Amor. Apesar da perfeição como preço.

E ainda assim… Cruel, a biologia: 14 anos. Arame farpado. Muro intransponível. Electrificado. Perpétuo. Ninguém tem duas mães. Menos ainda as meninas perfeitas.

- Mãe? A minha mãe? Vou chamá-la!

4 comentários:

Maria disse...

Fortíssimo!

Um beijo.

G... disse...

MARIA:
Só podia ser. Este. SÓ podia.
Beijo grande, Maria

Nilson Barcelli disse...

Fiquei impressionado com este teu texto. A clareza da bússola afectiva indicou as escolhas, mas também é uma ajuda para os dedos biológicos saberem construir uma narrativa há muito fixada no sentir. É uma interpretação subjectiva que eu faço e, por isso, posso estar redondamente enganado. Mas não me engano se te disser que gostei mesmo muito do teu texto.
Beijos.

G... disse...

NILSON:
Não estás, amigo.
Não estás.
Esta narrativa está-me tatuada nas entranhas. E foi arrancada a ferros para o papel.
Beijo.
E obrigada pela sensibilidade.