26 maio 2010

SOLIDÃO

A solidão é um saco cheio de abraços que não encontraram par. A poesia é o fumo que foge pela chaminé dos corpos quando as almas se encontram e se consomem nas chamas da paixão. Os caminhos são promessas de tempo a viver entre o ponto de partida e o ponto de chegada, entre a porta que se fecha e a porta que se abre.

Os outros são o nosso reflexo num mundo sem espelhos, onde somos todos velhos onde todos trazemos guardadas em rugas as memórias felizes, amarfanhadas sob as cicatrizes lisas da desilusão.

As crianças são gargalhadas que se escapam de bocas fechadas, que encontram nesgas de espaço onde não existem espaços, que usam o vazio para se fazerem eco do eco dos ecos que se propagam sem fim porque nada tem começo. E porque nada começa nada acaba.

Os olhos são furos em nós próprios – dois, não se estrague um – para deixar passar as lágrimas que fabricamos a toda a hora sobre as memórias que escavaram rugas que escondemos sob desilusões cicatrizadas.

Fazem um oceano, as lágrimas que justificam a existência dos olhos e que são sempre muitas e que querem sempre ser mais e que podem sempre ser mais porque arde em chamas a paixão por todo o lado fazendo-se fumo e cinzas e almas carbonizadas com furos para poderem chorar.

As lágrimas fazem-se palavras e quando ficam alinhadas, alindadas, rimadas, chamam-lhes poesia porque a poesia tira fotografias perfeitas às mágoas e às cicatrizes e às gargalhadas que são crianças e se fazem eco sem se fazerem som.

A poesia guarda-se em sacos. De pano, de plástico, sacos e sacos de palavras largadas, alinhadas ao fundo do inconsciente, contra a parede esquecida da felicidade. Coberta de «grafittis», de palavras gráficas, enormes e minguadas de significado, sobrepostas, expostas. Na parede esquecida da felicidade que também se podia chamar alegria, porque também já ninguém se lembra dela.

Dos olhos – em par – pingam gotas de solidão, líquidas de ausência. Transbordando desencontros, ávidas do abraço que não se deu e que se guardou no saco encostado à parede. Aquele, dos abraços que não encontraram par. E que se misturam com os sacos da poesia. Porque quando os braços se fazem abraço as almas fazem-se labareda. Depois brasa. Depois fumo. Depois cinza. Depois bonecos de gente para deambular num mundo que não começou e por isso não traz um fim a temer. Com dois buraquinhos no sítio dos olhos. Para verter lágrimas que serão oceano. Que os vai dissolver nas viagens pelos caminhos, pelas promessas do tempo que não existe porque o que não começa não pode existir. Entre a porta que se abre e a porta que se fecha. Que não precisa de passos nem de tempo. Porque é a mesma.

E tem a fechadura estragada.

9 comentários:

Maria disse...

Belíssimo!!!
Sem mais palavras...

Um beijo.

G... disse...

Maria:
OBRIGADA!
Sem mais palavras...
Beijo

PÉTALA disse...

G
Terás sempre um par de olhos a teu lado que não deixarão rodar a chave que abre a porta da tua solidão...
Aromas de
PÉTALA

PÉTALA disse...

G
Terás sempre um par de olhos a teu lado que não deixarão rodar a chave que abre a porta da tua solidão...
Aromas de
PÉTALA

Mar Arável disse...

Tudo é nada

e o seu contrário

nos olhos que veem

ou apenas olham

Nilson Barcelli disse...

Querida amiga, escreveste um texto soberbo.
Com tantas vertentes que seria muito extenso comentar cada parágrafo...
Todo o texto é irrepreensível e de elevadíssimo nível intelectual. Mas há passagens que merecem um destaque especial pela sua profundidade e/ou beleza:

"A poesia é o fumo que foge pela chaminé dos corpos quando as almas se encontram e se consomem nas chamas da paixão."

"Os outros são o nosso reflexo num mundo sem espelhos"

"As crianças são gargalhadas que se escapam de bocas fechadas"

"A poesia guarda-se em sacos. De pano, de plástico, sacos e sacos de palavras largadas, alinhadas ao fundo do inconsciente, contra a parede esquecida da felicidade"

etc...

Querida G... bom resto de semana.
Beijo.

G... disse...

Pétala:
Obrigada. É bom saber que há uma corda de salvação pendurada do precipício da Solidão
Beijo
G

G... disse...

MAR ARÀVEL:
E um olhar sobre o meu olhar: que conforto!
Obrigada!

G... disse...

NILSON:
Pois... este elogio de quem escreve «maravilhas» sabe a «maravilha»!
E que tremendo icentivo para uma principiante...
Obrigada! Muito obrigada!
E um grande beijinho!
G...